Raquel Sá
Especial para o Candango (publicada em agosto/2001)

O cineasta Vladimir Carvalho pretende contar a história de Brasília por meio de documentários contundentes e politizados. Depois de retratar a criação da cidade em Conterrâneos Velhos de Guerra e mostrar a tensão (dos vestibulandos e da época) no curta-metragem Vestibular 70, ele volta novamente ao cenário da Unb em Barra 68, onde expõe os conflitos entre estudantes e polícia ocorridos nos anos 60. Ele conversou com o Candango sobre o filme na sede da Fundação Cinememória, espécie de cinemateca que criou, sem ajuda do governo, para preservar a memória audiovisual do DF.

Candango - Fale um pouco a respeito de seu novo projeto, Barra 68.

Vladimir Carvalho - O filme começa em 64, com a criação da Unb pelo Darcy Ribeiro, a primeira invasão da universidade, e termina em 68, quando a crise do governo militar fica mais forte e a universidade foi ocupada. Em 64, prenderam os professores considerados perigosos e, no ano seguinte, 225 se demitiram voluntariamente, forçando a direção a encontrar substitutos às pressas. Em 68, com a onda de greves e protestos por todo o país, a Unb começa a preocupar o governo. Com a morte do estudante Edson Luís no Rio de Janeiro, a universidade resolveu homenageá-lo e deu o seu nome para a praça ao lado da reitoria. Os militares prenderam os estudantes e os levaram nus para uma quadra de basquete, em um dia bem frio. Um dos líderes, Honestino Guimarães, o Gui, logo depois de solto, caiu na clandestinidade, desaparecendo em 73. A família o tem como um morto da repressão. Eu conto sua história no filme. Algumas autoridades políticas, que tinham filhos estudando na Unb, tomaram partido e a crise mudou para o Congresso. No dia 2 de setembro de 68, o discurso do deputado do MDB, Márcio Moreira Alves (atualmente comentarista político do jornal O Globo), criticando a violência policial empregada na ocupação da universidade, serviu de estopim para os militares fecharem o Congresso e instalarem o AI-5 (Ato Institucional número 5), que já estava pronto.
A Unb pagou um preço muito alto por este episódio e demorou muitos anos para se reerguer.

Candango - Quando surgiu a idéia do filme?

Vladimir Carvalho - Tudo começou quando descobri um material em preto e branco filmado em 68 mostrando tropas militares invadindo a Unb.

Candango - Como foi feita a seleção dos depoimentos e das cenas de arquivo?

Vladimir Carvalho - A partir do material descoberto procurei as pessoas que estavam na Universidade na época e colhi seus depoimentos. Alguns depoimentos levaram a outros e o filme foi se armando por si.

Candango - Qual é o principal objetivo do filme?

Vladimir Carvalho - O objetivo é resgatar episódios marcantes e exemplares que envolveram a luta da nossa universidade – que era a coisa mais importante da cidade na época – nos anos 60.

Candango - Barra 68 possui depoimentos do fundador da Unb, Darcy Ribeiro e de outras pessoas que estiveram na cidade na época, como o cineasta Cacá Diegues e o ator francês Jean Pierre Léaud. Conte um pouco sobre a participação deles.

Vladimir Carvalho - Darcy Ribeiro conta as dificuldades que enfrentou para fundar a Unb, em 65. Ninguém queria estudantes ou operários em Brasília. Cacá Diegues estava em 68 na cidade filmando Os Herdeiros, com Jean Pierre Léaud, que tinha participado das barricadas de Paris, em maio daquele ano. Os estudantes brasilienses os convidaram para participar de um debate na universidade.


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